A América Latina está preparada para a inovação israelense

Considerando que empresas de tecnologia israelenses estabelecidas, que já passaram por várias rodadas de financiamento estão pensando em maneiras de acelerar o crescimento, parece que chegou a hora de começar a falar sobre a América Latina como um mercado-alvo. Como empresário de uma empresa que começou neste mercado e atua nele desde sua criação, reuni alguns insights que podem ajudar a atingir os objetivos de penetração no mercado latino.

Em primeiro lugar, quero quebrar o primeiro mito que os empreendedores têm: você pode começar a comercializar o produto mesmo fora do mercado dos EUA como um mercado-alvo primário e ter muito sucesso. Vou quebrar outro mito: para algumas empresas, é até mesmo o passo estratégico que levará a um desenvolvimento mais rápido da empresa e a um maior valor da empresa. Durante as conversas que tive com investidores em potencial, descobri que há uma grande abertura e interesse em empresas interessadas em se voltar para outros mercados além do americano. Muitos deles ficaram muito surpresos ao saber do tamanho desse mercado e de seu potencial.

Alguns números: A população da América Latina é de 663 milhões de pessoas, vivendo em 22 países e constitui 8,4% da população mundial. E assim como as economias latino-americanas foram atingidas pelas primeiras ondas do corona, a recuperação em países como Brasil, México e Colômbia é rápida e acentuada. Esses países simplesmente entenderam que a aplicação de inovação e tecnologia é a base para a flexibilidade econômica e a recuperação de crises, e esse fato possibilita a implementação de tecnologias nas economias latino-americanas, diferentemente da década que terminou no final de 2019. Empresas como Google, Amazon, Salesforce, SAP, Zoom e Stripe cresceram significativamente nos últimos anos na América Latina porque entenderam o tamanho do mercado e seu potencial.

De fato, justamente porque o foco da maioria das empresas globais de tecnologia – e especialmente das israelenses – não está lá, a América Latina é um terreno fértil para o crescimento e florescimento de empreendimentos tecnológicos. Compreender as necessidades das empresas e consumidores no continente oferece um mercado em escala suficientemente grande, com relativamente pouca concorrência. Alguns chamam essa situação de “oceano azul” – principalmente quando se fala em startups que vêm com vantagem tecnológica e implementam produtos mais eficientes e bem definidos do que os existentes no mercado-alvo.

Quais são os preparativos necessários para entrar no mercado latino? Financeiramente, os empresários e gerentes são obrigados a preparar quatro matrizes importantes: vendas, operações, serviços e finanças. A preparação é diferente de organizar vendas nos EUA: traduzir os preços para a moeda local, preparar uma estrutura legal ideal, estrutura tributária recomendada e muito mais.

Outro passo no caminho para a decisão é encontrar parceiros locais ou pessoas que tenham um profundo conhecimento do mercado – e é muito importante que trabalhem lá há muitos anos e falem a língua local. Como estratégia de penetração no mercado, é possível captar recursos de fundos locais na América Latina. Fundos de capital de risco como Base Partners, Kaszek, Mindset têm conhecimento e conexões significativas neste mercado. Os principais investidores do fundo Base Ventures são os donos das maiores empresas do Brasil – o que permite ao fundo abrir portas para empresas B2B e criar oportunidades interessantes.

Quão grande é realmente o potencial? Pode-se aprender sobre isso, entre outras coisas, pelo fluxo de fundos dos maiores VCs do mundo. O gigante de investimentos SoftBank, por exemplo, anunciou em julho passado que planeja investir mais US$ 5 bilhões no financiamento de startups na América Latina, que se soma aos US$ 5 bilhões de investimentos já alocados no continente.

A América Latina também tem uma força de trabalho muito talentosa, a custos relativamente baixos. O anseio pelo sucesso das empresas gigantes ao lado das startups e cultura de inovação também está presente em países como Argentina, Chile e Brasil, e por isso a camada educada e competitiva desses países tem interesse em trabalhar em startups internacionais que as tragam oportunidades.

Como não existem muitas startups com esse perfil na América Latina, desenvolvedores e desenvolvedores de negócios muito talentosos podem ser encontrados com facilidade em relação a Israel e outros países ocidentais. Além disso, os talentos locais destinados ao trabalho de alta tecnologia geralmente têm formação acadêmica nas principais universidades americanas, falantes nativos de inglês e, claro, espanhol ou português. Tudo isso é uma dupla vantagem nas áreas de software, produto e vendas. Não há quem conheça melhor o público-alvo do que os locais.

Isso é importante entender: nem todo produto será capaz de ter sucesso e prosperar primeiro no mercado latino. Pode até ser certo que seria o seu segundo ou terceiro mercado. Como você sabe o que fazer? Além do claro clichê da pesquisa de mercado, vale a pena entender quais são as necessidades. Por exemplo, a taxa de uso do WhatsApp é muito alta nesses países. 90% dos moradores do continente usam o aplicativo e o Brasil ocupa o segundo lugar no mundo em número de usuários. Portanto, soluções empresariais relacionadas ao WhatsApp ganharão um ouvido muito mais atento por lá do que soluções relacionadas a outros aplicativos de mensagens.

As economias latino-americanas são semelhantes em suas características a muitos estados dos Estados Unidos. Tudo isso também faz do mercado latino uma rota alternativa ao mercado americano. Ou seja, é possível que startups que chegaram pelo Vale do Silício ou Nova York possam aumentar sua aderência no mercado latino. E sim, essa também é uma maneira de se estabelecer no mercado dos EUA. É hora de abrir a cabeça e ir para a América do Sul, e não apenas para uma viagem.

Fonte: Yanir Calisar, CEO & Co-fundador da Whatslly, para CTech.

Imagem por Andrea Piacquadio