Alta de investimentos na indústria de cybersegurança israelense

Investidores estão entornando fundos em startups de cybersegurança israelense, o que cria empresas avaliadas em bilhões de dólares e dá ao país uma desproporcional porção da fatia de crescimento global no setor.

Enquanto aportes de venture capital para israelenses atingiram a marca de U$1 bilhão no ano passado, de acordo com a firma de análise de dados de negócios Crunchbase, isso representou cerca de 14% do investimento mundial em startups de segurança. Estes valores são inferiores apenas aos investidos em empresas norte-americanas, que receberam U$5.9 bilhões em 2020. Isto porque, financiamentos cresceram a U$7.8 bilhões no ano passado, mais do que dobrando desde 2016.

Israel tem produzido líderes no segmento por mais de duas décadas. Mas investidores e fundadores dizem que VC’s têm, nos últimos anos, gasto mais dinheiro para desenvolver fases mais avançadas de crescimento em startups de ex-militares israelenses. Redes de distribuição estabelecidas nos Estados Unidos da América ajudam empresas a alcançarem clientes com mais facilidade.

A vantagem é que o país exporta mais ferramentas e conhecimento cyber do que muitos países maiores, com a digitalização de empresas e crescimento de ameaças em escala global. Alguns investidores e fundadores comparam o aumento de investimentos à inflação, avisando que pode acabar por direcionar a ênfase ao levantamento de fundos ao invés do desenvolvimento de projetos viáveis.

“É necessário cuidado quando tanto dinheiro vem para apenas um setor”, disse Erel Margalit, fundador da empresa de VC Jerusalem Venture Partners  e ex-membro do poder legislativo israelense. Para Margalit, alguns empresas focadas no crescimento podem acabar prometendo mais do que conseguem entregar, atraindo investidores sem experiência no cyber.

Um grupo em particular tem se aproveitado dos novos aportes: antigos hackers da Força de Defesa (IDF) que usam seu know-how ofensivo para criar ferramentas defensivas.

Dean Sysman, executivo-chefe da startup de gerenciamento de dispositivos Axonius, Inc., serviu ao lado de Ofri Shur e Avidor Bartov no Unit 8200, em clichê comum para criadores de startups cyber, segundo ele. Mas suas redes de contatos permitiram que Sysman e outros com passado militar pudessem transformar sua expertise técnica em negócios, chegando com força em cidades como Nova Iorque, onde hoje está sediada a empresa que foi avaliada em U$1.2 bilhões em março de 2021.

Mas, a bonança nem sempre foi a regra. Este é o caso de Gil Shwed, que depois de fundar a Check Point Software Technologies Ltd. em 1993, viajou a diversas cidades nos Estados Unidos da América para garantir seu primeiro milhão de dólares em vendas para clientes iniciais. Sem vendas e conexões de marketing para promover seu produto, Shwed disse que a viagem demorou dez vezes mais do que pretendia.

Hoje, iniciativas apoiadas pelo governo, firmas de VC e entidades sem fins lucrativos israelense-americanas ajudam a conectar empresas com potenciais parceiros de negócios. O crescimento de videochamadas durante a pandemia do novo coronavírus também ajudou empresas a chegarem mais rapidamente em seus objetivos. Isto evita a necessidade de duas sedes e aumenta possibilidades pra o teletrabalho, adotadas por empresas como a Cato Networks, fundada em 2015 por outro ex-fundador da Check Point, Shlomo Kramer.

Alguns investidores enxergam oportunidade em empresas israelenses que vendem ferramentas de hacking ofensivas. As empresas fazem o marketing de seus produtos para o combate ao crime ou contraterrorismo, mas grupos de direitos humanos criticam a potencial aplicação em regimes autoritários. Por exemplo, a firma de private-equity Francisco Partners comprou o controle acionário da firma de spyware NSO Group Technologies Ltd. em 2014 por U$130 milhões, e a vendeu de volta aos fundadores e a britânica Novalpina Capital em 2019, por cerca de U$1 bilhão.

Em startups focadas na defesa, fundadores que antigamente vislumbravam vender suas empresas para firmas como a Microsoft Corp. ou a Alphabet Inc. da Google hoje desejam, antes de qualquer coisa, a abertura do capital.

Por fim, empreendedores como Dror Davidoff, co-fundador da Aqua Security Software Ltd., que arrecadou U$135 milhões em março de 2021, apostam que mudanças rumo ao e-commerce, trabalho em regime híbrido e computação em nuvem irão criar novos pontos fracos e sacudir o mercado e ofertas. Só nos resta acompanhar estas mudanças.

Fonte: David Uberti escrevendo para WSJ.