Cyber Park em Israel leva polo high tech de US$ 21 bilhões ao deserto

Até 2013, a cidade bíblica de Be’er Sheva, em Israel, era conhecida por ser a porta de entrada para o deserto do Negev. É cercada de areia, abriga a Universidade Ben Gurion e tem alguns camelos.

A realidade mudou quando o governo criou um polo tecnológico para criar ferramentas de cibersegurança. O Cyber Spark virou questão de defesa nacional quando as Forças Armadas anunciaram a transferência para lá de seu centro de tecnologia e inteligência e da área de telecomunicações. O custo total será de US$ 21 bilhões.

Os grandes números não se resumem a cifras monetárias. A cidade de 200 mil pessoas deve receber 10% de sua população em sete anos, estima Roni Zehavi, presidente do Cyber Spark. Apenas militares serão 7 mil, diz o Exército.

A universidade tem 20 mil alunos, mas depois de concluírem seus cursos, os alunos debandavam, rumo Tel Aviv. “Eu quero estudar na Ben Gurion. Mas Bersebá? Lá só tem deserto”, diz uma jovem que trabalha no aeroporto de Tel Aviv.

Como o exércio foi peça-chave?
O problema já era conhecido. A solução, também. Colocá-la em prática, porém, demorou. “A visão de construir o parque surgiu há 15 anos, mas havia dificuldade de fazer as pessoas ficarem na cidade”, diz a professora Rivka Carmi, presidente da Universidade Ben Gurion.

O fiel dessa balança foi o Exército, que exerce importante função na sociedade do país, já que todos os cidadãos, à exceção dos judeus ortodoxos, têm de cumprir serviço militar obrigatório por três anos. A instituição decidiu retirar suas instalações do entorno de Tel Aviv, capital econômica, e transferi-las para o centro do país.

Como mover 35 mil pessoas?
O projeto moverá 35 mil pessoas, e faz parte da tentativa do governo de conectar a região central ao norte – por isso, construiu uma linha direta de trem entre Tel Aviv e Bersebá.

O terceiro tripé do que o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, chamou de “cyber hub” é a indústria. Além de ela trabalhar em novas tecnologias e apostar em startups, vai absorver os estudantes (um terço dos engenheiros do país são formados pela Bem Gurion). Não necessariamente absorver, está mais para disputar a tapa.

“Vai ser uma caçada. Mas queremos que as pessoas se sintam bem servindo ao Exército. No momento em que acabar esse período, terão empresas em Bersebá em que poderão trabalhar. Bastará cruzar a rua”, diz Yonat Marton, chefe da unidade de infraestrutura civil do Exército.

Fundo de investimento fez sua parte
A ponta de lança corporativa é o JVP, maior fundo de investimento de Israel e o 10º do mundo. Ele decidiu levar para o deserto uma incubadora de startups e sua experiência em fazer dinheiro. Só nos últimos quatro anos, a firma lucrou US$ 1,3 bilhão.

Em 2014, a maior abertura de capital de uma empresa de tecnologia na Nasdaq foi a de uma companhia que recebeu dinheiro do JVP. A CyberArk levantou US$ 540 milhões e passou a ser avaliada em US$ 2,3 bilhões.

Ocupando o primeiro prédio do Cyber Spark, a JVP é vizinha de outras multinacionais já instaladas por lá, como EMC (análise de dados), Oracle (banco de dados) e Deutsch Telekom (telecomunicações). Cisco (redes de comunicações), Lockheed Martin (indústria aeroespacial) e IBM (tecnologia da informação) estão para chegar. Outros três prédios ainda deverão ser construídos.

De Startup Nation a Cyber Nation
O multibilionário Cyber Spark é o principal esforço de Israel para fazer o país passar de “Startup Nation” (são 5 mil empresas iniciantes de tecnologia ativas e uma média de 700 novas criadas a cada ano) e se transformar na “Cyber Nation”. Frutos da cultura bélica do país, voltada para a defesa, os produtos do mundo “cyber” já fazem parte da pauta de exportação de Israel.

Tanto que, em 2014, renderam mais do que armamentos da indústria tradicional. “Bersebá não será apenas a cybercapital de Israel, mas também um dos mais importantes lugares no campo de cibersegurança do mundo”, afirmou Netanyahu, em junho, durante a 5ª Conferência Anual Internacional de Cibersegurança, que ocorreu em Tel Aviv.

Fonte: G1