O modelo de empreendedorismo israelense pode ser replicado?

Cerca de uma hora depois que o sol começa a iluminar as praias, cadeiras são enfileiradas na orla e os calçadões começam a receber atletas correndo, patinando ou caminhando. No decorrer do longo dia de verão, vemos jovens fazendo ginástica, jogando vôlei ou andando de skate. O sol poente pinta em tons pastéis as casas em estilo Bauhaus que enfeitam alamedas ricamente arborizadas. O dia termina com os últimos raios de sol sobre altos edifícios de escritórios que exibem orgulhosamente logotipos de grandes multinacionais de tecnologia. À noite, a agitação continua com bares apinhados, restaurantes lotados, muita gente caminhando com o frescor da brisa do mar e conversas animadas à luz dos vários telões que exibem os jogos da Copa do Mundo.

Esse parágrafo descreveria facilmente um cenário típico da costa californiana, carioca, caribenha ou espanhola. Mas um fato torna este cenário único: há vinte anos, nada disso existia por ali. Estou falando de Tel Aviv, em Israel, cidade que vem desbancando o Vale do Silício como referência em modelo de empreendedorismo de alta tecnologia. A convite da Universidade de Tel Aviv, passei 10 dias junto com outros professores de renomadas escolas da Ásia e Europa, conhecendo a cultura, a história e o ecossistema empreendedor da chamada ‘Nação Empreendedora’, retratada na obra de Dan Senor e Saul Sing.

Menor do que o estado de Alagoas e com uma população equivalente a dois terços da paulistana, Israel se tornou um incomparável fenômeno de desenvolvimento econômico. Não vou repetir aqui o que a mídia já explorou razoavelmente bem. Antes de continuar, sugiro que leia o depoimento de Sandra Boccia, diretora de redação da PEGN, que visitou o país em março e publicou uma reportagem edição da revista a respeito, ou confira os exemplos de empreendedores israelenses descritos por Carlos Arruda, da FDC.

Até fazer essa visita, havia participado de diversas discussões sobre a possibilidade de replicar o modelo do Vale do Silício. A conclusão era sempre unânime: é impossível! Depois de conhecer o país, vi que a resposta não é exatamente esta. Não há dúvidas que Israel replica muita coisa do modelo americano. Começando pelas praias que descrevi na abertura deste texto, passando pelo campus universitário, muito parecido com os americanos, e chegando aos espaços de co-working, com bicicletas penduradas e frutas e bebidas à vontade em um ambiente descolado, a impressão é que estamos mesmo na Califórnia.

Existe, no entanto, algumas particularidades que mostram que Israel desenvolveu a sua própria identidade. Acredito ser esta a verdadeira lição que precisamos aproveitar. Se levarmos em conta sua cultura, fortemente lastreada na religião judaica e reforçada ao longo das gerações pela necessidade imposta pela diáspora, sua situação geo-política fragilizada, em meio a países belicosos, e a vontade nacionalista de construir uma nação, veremos que o empreendedorismo de alto impacto de Israel se justifica acima de tudo pela motivação intrínseca de seu povo. Essa motivação está por trás da chegada de imigrantes judeus com excelente formação acadêmica, do apoio governamental para o desenvolvimento de tecnologias necessárias para sua sobrevivência e de uma geração de jovens dispostos, com boa formação e maduros para empreender (eles entram na faculdade após os 23 anos, devido ao serviço militar e ao hábito de ‘mochilar’ pelo mundo).

Com base nisso, acredito que o melhor caminho para o Brasil desenvolver o seu DNA empreendedor não seja copiar outros modelos, mas sim adaptá-los de acordo com suas condições intrínsecas – como cultura, ambiente e recursos. Assim como Israel aproveitou as suas forças, como podemos usar o que temos de forte e único? A seguir, alguns exemplos.

Somos um povo extremamente criativo 
Da mesma forma que acontece em Israel, a necessidade nos força a sermos criativos. Só que, ao contrário de Israel, nossa criatividade é voltada para a improvisação, e não à inovação. Isso não é de todo ruim: o famoso “jeitinho brasileiro” é um traço cultural que, embora carregado de implicações pejorativas, pode e deve ser aproveitado para o bem – assim como Israel tirou proveito dos “hackers do bem” para desenvolver e testar seus sistemas de segurança. Nossa habilidade de extrair resultados a partir do nada, o que os americanos chamam de “bootstraping”, é incomparável. Segundo o relatório do Global Entrepreneurship Monitor no Brasil, a média de investimento para iniciar um novo negócio no mundo é US$ 68.700, enquanto no Brasil é de apenas US$ 8.500. A falta de recursos financeiros é o melhor estímulo para a criatividade de necessidade.

Somos um povo muito amigável
Já sabíamos disto, mas a atuação como anfitriões da Copa do Mundo solidificou esta imagem perante o mundo. Este é um dos principais traços que qualificam o brasileiro: sua capacidade de fazer amigos, estabelecer relações sociais, criar vínculos emocionais. O brasileiro é fácil de lidar, por isso negocia bem. Ele tem um senso de cooperação distinto dos outros povos. Individualmente, ele é egoísta. Diante da necessidade, por outro lado, ele é solidário e está sempre disposto a ajudar e contribuir – esse senso de comunidade embasa fortes parcerias para negócios.

Colocamos a qualidade de vida em primeiro lugar
Complementando o aspecto comportamental da receptividade, o brasileiro é da paz, foge de confrontos e quer estar bem com todos. Ao contrário de outros países empreendedores, que têm traumas de guerra (recentes no caso de Israel), o Brasil é um país da não confrontação. A imagem de povo feliz, que sabe curtir a vida e valorizar o que é bom, tem seu lado negativo, que é o excesso de conformismo e falta de ação. Maso empreendedor brasileiro sabe conciliar a busca pelo desempenho crescente com sua vida pessoal, família, amigos. Embora os modelos americanos e israelenses preguem a incansável dedicação do empreendedor nascente, o brasileiro vai querer curtir a vida em primeiro lugar e o seu empreendimento é um caminho para isso. É isso que vai inspirar os tipos de negócios que eles abrem (mais prazer do que dinheiro), e definir do que abrirão mão ou não em sua vida pessoal.

O que estou querendo dizer aqui é que o modelo empreendedor brasileiro, quando e se vingar, não será comparável a nenhum outro existente, pois os pressupostos e fundamentos são completamente diferentes. O que para muitos são traços negativos, que impedem o empreendedorismo, podem ser vistos de outra forma: como diferenciais que podem se tornar nossas fortalezas. Israel mostra que nenhum exemplo, por melhor que seja, pode ser replicado como é. Pode-se, sim, aproveitar o que existe de melhor do modelo e adaptá-lo para o que prevalece no país ou na cultura. E é isso que precisamos construir no Brasil.

Fonte: Revista PEGN

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