Por que não vemos unicórnios em Tel Aviv?

Uma onda sem precedentes de ofertas públicas iniciais para empresas israelenses de tecnologia tomou as bolsas de ações de Tel Aviv (TASE) e Nova Iorque neste ano. Mas, há um sensível detalhe: enquanto mais de 4 bilhões de NIS foram arrecadados no Tel Aviv Stock Exchange na primeira metade de 2021, por 42 novas empresas, em Wall Street, durante o mesmo período, onze empresas de Israel receberam um valor agregado de mais de 5 bilhões de dólares americanos. Além disso, estas empresas possuem agora avaliações na casa dos bilhões, o que não ocorre no país de origem.

Ciente de seu potencial pouco explorado para gerar grandes negócios, a administração da bolsa israelense tenta há anos atrair empresas de tecnologia para IPO em Tel Aviv, seja exclusivamente ou de forma complementar à sua presença nos Estados Unidos da América. Entretanto, e apesar de um moderado sucesso refletido nos ganhos deste ano, fica claro que as empresas mais promissoras (como a monday.com, SentinelOne, ironSource e Payoneer) ainda não consideram a bolsa nacional uma opção, dirigindo-se diretamente para o continente norte-americano.

De acordo com Guy Preminger, partner e líder do setor de tecnologia da PwC Israel, “pelo menos no momento, os unicórnios realmente grandes irão à Wall Street, porque lá conseguem investimentos que são mais difíceis de atingir em Tel Aviv, ou porque desejam se fundir com Companhias com Propósito Específico de Aquisição [SPACs, na sigla em inglês], uma possibilidade que apenas recentemente se tornou realidade na TASE”. 

Mas, a bolsa de Tel Aviv está se transformando, pois ainda segundo Preminger, é muito possível que no futuro próximo as coisas se alterem e empresas consigam arrecadar somas acima de um bilhão de dólares por ali. Havendo, durante muitos anos, se vendido como trampolim para a Nasdaq, uma das mudanças recentes é que as empresas passaram a aceitar esta oportunidade. Para o especialista, atualmente há preferência pela Nasdaq ou New York Stock Exchange porque, apesar dos custos maiores e distância física, existem motivos psicológicos como a reputação da bolsa. Conclui que “algumas empresas próximas ao status de unicórnio passarão a figurar na TASE se receberem uma boa proposta, mas os grandes unicórnios continuarão a optar pelos Estados Unidos”, apesar dos esforços do país natal para que suas ações sejam negociadas também por lá. 

 Outra fonte que conhece o mercado de capitais da região complementa que “hoje, é difícil entrar na Nasdaq com menos de 100 milhões de dólares anuais em faturamento. Portanto, deve a bolsa de Tel Aviv mirar nas empresas que ainda não atingiram esta marca, como a Glassbox, que recentemente foi avaliada em 1.2 bilhões de NIS”. 

Um caso de sucesso da TASE é a da empresa de fintech Nayax, que foi avaliada em 1 bilhão de dólares e optou em fazer seu IPO em Tel Aviv, graças a um modelo global que incluiu segurador estrangeiro que distribuiu cotas a investidores também estrangeiros, responsáveis por 70% da demanda. Isto tornou a empresa uma das maiores da bolsa, enquanto nos Estados Unidos teria sido considerada pequena para os padrões de negociação. Todavia, complementa a fonte que “é verdade que o mercado norte-americano possui muitos investidores que conhecem profundamente a tecnologia e sabem como investir”, motivo pelo qual a Nasdaq, “que é o maior mercado global do ramo, tem o privilégio de receber as melhores empresas [mesmo se] quem seria sensação em Israel, é ali apenas uma gota em um oceano”. 

De acordo com Omri Cohen, a presença em bolsas de Nova Iorque acompanha uma reputação internacional, que atrai investidores de todas as nacionalidades, interessados na transparência e acessibilidade, que se dá principalmente pelo uso da atual língua franca global, o inglês, nos relatórios. Além disso, empresas listadas nos Estados Unidos também recebem maior cobertura da mídia internacional, o que é extremamente valioso para empresas de tecnologia. Por estes motivos, Cohen é menos otimista que seus colegas quanto à possibilidade de mudança no status quo.

Fonte: Globes