Financiamento coletivo com muitos cifrões

No campo da inovação, Jon Medved já jogou em todas as posições. Americano radicado em Israel há 34 anos, ele criou empresas variadas como a Meret e a Accent – de fibras ópticas e softwares empresariais -; trabalhou como diretor-presidente da Vringo, uma companhia de tecnologia móvel da qual também foi cofundador; e atuou como investidor no fundo Israel Seed Partners, outro de seus projetos. Agora, com a experiência acumulada de empreendedor, executivo e investidor, Medved quer estimular um modelo que considera fundamental para a inovação: o “crowdfunding”.

A expressão não é nova. Nem o que ela designa: a prática de doar somas de dinheiro via internet para financiar um projeto. Em geral, são quantias pequenas, doadas por gente comum, que recebe a promessa de obter o produto ou serviço que está sendo patrocinado assim que ele ficar pronto.

Na OurCrowd, a empresa de Medved, o princípio é o mesmo, mas o escopo é completamente diferente. A modalidade, conhecida como “equity crowdfunding”, visa reforçar o capital de empresas novatas em troca de uma participação no negócio. É o cruzamento entre o financiamento coletivo on-line – muitas vezes disperso, emocional e feito na base da camaradagem -, com a ação calculada dos fundos de venture capital, baseada em métricas para minimizar os riscos.

Desde que começou a funcionar, 19 meses atrás, a OurCrowd investiu mais de US$ 70 milhões em 51 empresas de vários países. A maior parte dos negócios (cerca de 80%) está concentrada em Israel, mas já foram feitos investimentos em empresas dos Estados Unidos, da Austrália e da Nova Zelândia, entre outros lugares. A ideia, agora, é expandir essa abrangência. “Estamos procurando acordos no Brasil”, diz Medved ao Valor. “No país existem muitos empreendedores, muitos investidores. Queremos estabelecer uma ligação entre eles por meio do nosso sistema.”

Para as companhias iniciantes, afirma Medved, a vantagem é não se limitar aos investidores locais. “Pessoas no Vale do Silício, ou em Israel, ou em Boston, ou na África do Sul, ou em Sydney, elas podem apertar um botão e dizer ‘eu tenho US$ 10 mil, US$ 50 mil’. E a força global dessa massa é maior que a de qualquer fundo de venture capital”.

Foi o que aconteceu com a Surgical Theater, conta Medved. A história começa com dois ex-oficiais do exército israelense que queriam apresentar ao grupo de defesa Lockheed Martin um simulador de voo para os jatos militares F16. Os dois conversavam sobre isso em um café na University Circle, em Cleveland, Ohio, quando foram interrompidos. Um médico, que acabou ouvindo a conversa, perguntou se a tecnologia não poderia ser empregada em um simulador que ajudasse a entrar no cérebro de um ser humano, sem que o paciente precisasse, de fato, passar por uma cirurgia.

A conversa evoluiu e o trio começou a procurar fundos de investimento na Costa Leste dos Estados Unidos e na Califórnia para financiar o projeto. A princípio, os investidores demonstravam interesse, mas desistiam ao saber que a base das operações estava em Ohio, longe dos centros de inovação mais conhecidos. O projeto deslanchou ao chegar ao conhecimento da OurCrowd. “Adoramos a ideia. Em uma semana mandamos uma pessoa a Cleveland”, diz Medved. “Desde então, eles já obtiveram três rodadas de financiamento.”

Só 2% das empresas avaliadas é selecionada, afirma Medved. Os primeiros recursos são investidos pela própria OurCrowd. Só então o nome da companhia escolhida é publicada no site, com as razões da decisão e um convite para que outros investidores façam o mesmo. Cada investidor escolhe as companhias nas quais quer investir.

Vários países começam a formular suas próprias regulamentações sobre esse tipo de investimento. Um congresso sobre o assunto, no Rio, foi um dos motivos da visita recente de Medved ao Brasil. Nos Estados Unidos, a modalidade é reservada aos chamados “accredited-investors”. É preciso ter um patrimônio líquido de US$ 1 milhão ou uma renda anual de US$ 200 mil para ingressar nesse clube. Esse universo é calculado em 10 milhões de lares, ou quase 7% das famílias americanas. Em Israel, a exigência é ainda maior: o patrimônio líquido precisa ser de US$ 3 milhões no mínimo. A OurCrowd tem escritórios nos dois países, além da Austrália.

No Brasil, não existe legislação específica sobre o assunto. Em nota ao Valor, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) afirmou que, por conta disso, “não há nenhuma restrição quanto ao patrimônio do investidor que poderia adquirir valores mobiliários ofertados via crowdfunding no Brasil”. A CVM informou que acompanha as iniciativas de outras jurisdições sobre o tema e que está permanentemente modernizando a regulamentação do mercado de capitais.

Na OurCrowd, o investimento mínimo na empresa escolhida é de US$ 10 mil. A OurCrowd soma os recursos dos vários investidores interessados e preenche um cheque único. Esse modo de operar, diz Medved, é fundamental para o sucesso da empreitada. “Em vez de entrar com investimentos [isolados] de US$ 10 mil, que não garantem direitos ou proteção, vamos com US$ 1 milhão ou US$ 2 milhões, com todos os direitos de um fundo de venture capital.”

O volume de investimento permite a OurCrowd ocupar um assento no conselho e envolver-se em questões estratégicas, inclusive a preparação para rodadas adicionais de investimentos.

A saída ocorre no tempo médio de cinco anos, comum entre os fundos de venture capital, mas isso depende da fase de maturidade da companhia na época do aporte. Entre maio e junho do ano passado, a OurCrowd investiu na ReWalk, uma empresa israelense que projeta e fabrica exoesqueletos robóticos. Os equipamentos ajudam pessoas com lesões na medula espinhal a voltarem a andar. A ReWalk recebeu recursos de 57 pessoas, de nove países, que investiram US$ 23,1 mil em média. O total foi de US$ 1,3 milhão.

No mês passado, a ReWalk fez uma oferta pública inicial de ações na Nasdaq, pouco depois de receber um novo aporte de US$ 2,59 milhões dos membros da OurCrowd. A estreia em bolsa ocorreu após a FDA – a agência americana que regulamenta alimentos e remédios – ter aprovado o uso do aparelho, que é vendido a US$ 85 mil. A ação da ReWalk estreou a US$ 12. Ontem, era negociada a US$ 28,60. Isso dava à companhia, cujo faturamento foi de US$ 1,6 milhão em 2013, um valor de mercado de US$ 328,51 milhões.

Medved é descendente de judeus vindos da Alemanha e da Rússia. Os primeiros emigraram para os EUA fugindo dos nazistas. Os segundos, dos pogrons, ondas de perseguição ocorridas na Europa desde o fim do século XIX. “Eu nunca tive de fugir de nada”, diz ele. A mudança para Israel, conta, ocorreu naturalmente, depois de ele conhecer o país, pelo qual se encantou e do qual é cidadão.

A inovação também pareceu um caminho natural a seguir em Israel. O país é um dos maiores centros globais para companhias novatas de tecnologia. Só neste ano, a expectativa é que sejam investidos US$ 3 bilhões em 700 empresas nascentes no país. É 30 vezes o volume de recursos previsto na Austrália, de US$ 100 milhões, que tem o triplo da população israelense, compara Medved.

As razões que fazem de Israel um centro de inovação são muitas e já renderam best-sellers sobre o assunto. Para Medved, um dos motivos mais importantes é a cultura empresarial que se desenvolveu no país, onde conflitos políticos e militares são comuns e a passagem pelo exército é uma fase marcante para todos os cidadãos. Comparativamente, diz ele, o risco empresarial parece pequeno. “O que pode acontecer se você falir? Perder o emprego, dinheiro? Grande coisa… Comece de novo”.

Fonte:  Valor Econômico